A teoria do apego faz uso do "babywearing”,
o costume de carregar o bebê num carregador de pano
como um canguru ou mochila ou uma tipóia de bebê
como maneira de promover o vínculo entre mãe/pai-filho
e a responsividade da mãe/pai. Embora seja pouco
usual em nossa cultura, babywearing é uma prática
comum ao longo da história da humanidade e ainda
é muito comum hoje em algumas partes do mundo. Adicionalmente,
tipóias e outros carregadores macios possibilitam
dar colo e amamentar com as mãos livres, permitindo
convenientemente que a mãe possa cuidar de seu bebê
e ainda realizar diversos tipos de trabalhos e tarefas.
Colo, choro e vínculo
Bebês carregados choram menos e ficam menos inquietos
que bebês que passam a maior parte do dia sem contato
físico com seus pais. No estudo de Hunziker e Barr
(1986) sobre carregar o bebê e seu efeito no choro
do mesmo, mostrou-se que carregar o bebê cada vez
mais durante o dia reduz tanto a duração quanto
a qualidade do choro do bebê. Nesse estudo, que incluiu
99 duplas mãe-bebê , as mães do grupo
experimental (49 duplas) receberam carregadores de bebê
macios e foram orientadas a carregarem seus bebês
durante três horas por dia sem ser porque choravam
ou para alimentá-los durante oito semanas. O resultado
foi que com seis semanas, a idade em que o choro dos bebês
na sociedade ocidental atinge seu pico, o grupo de bebês
carregados cada vez mais choravam e ficavam inquietos 43%
menos que o grupo controle; isto significava aproximadamente
uma hora a menos de choro por dia. Estes bebês também
eram alimentados mais frequentemente, embora não
durante mais tempo, e permaneciam calmos e atentos durante
mais tempo por dia que o grupo controle de bebês.
Este estado de calma e atenção dos bebês
é tipicamente considerado pelos estudiosos em desenvolvimento
infantil e pediatras como o estado em que o bebê é
mais capaz de aprender (Sears, 1995a; Sears & Sears,
1993).
O desenvolvimento do vínculo também é
afetado ao carregar cada vez mais o bebê, como demonstrado
num estudo de díades mãe-bebê por Anisfeld,
Casper, Nozyce, e Cunningham (1990). Em contraste com o
estudo de Honziker e Barr (1986) no qual participaram mães
Canadenses de classe média, este estudo foi conduzido
com a participação de mães pertencentes
a classes sócio-econômicas mais baixas e decendentes
de grupos étnicos minoritários num grande
centro urbano dos Estados Unidos. No estudo de Anisfeld
et al. participaram 49 pares. O estudo procurou provar que
mães que carregavam seu bebês em carregadores
macios durante os três primeiros meses de vida seriam
mais sensíveis e responsivas a seus bebês depois
de 90 dias que as mães que carregavam seus bebês
em cadeiras de plástico e ainda, que este comportamento
responsivo estaria relacionado à formação
de um vínculo seguro aos 13 meses. As hipóteses
formuladas pelos autores provaram serem corretas. As mães
dos carregadores de pano não eram apenas mais responsivas
em relação aos seus bebês na infancia
mas 83% das crianças demonstraram forte vínculo
na idade de 13 meses. Isto foi comparado ao grupo controle
onde apenas 38% das crianças formaram vínculos
fortes na mesma idade. Curiosamente, no grupo controle,
quatro mães usaram um carregador de pano macio além
de usar o assento de plástico tipo cadeira de carro
e três das quatro mães apresentaram vínculos
fortes com seus bebês. Os autores também notaram
que havia uma alta porcentagem de relacionamentos de apego
evitante dentro do grupo controle (38.5%), consistente com
dados existentes sobre apego mãe-bebê em populações
urbanas de baixa-renda semelhantes. Ficava claro que carregar
cada vez mais o bebê num carregador frontal macio
melhorava consideravelmente as chances da dupla mãe-bebê
de formar um vínculo forte e era uma intervenção
valiosa de ser implantada em populações de
alto risco.
Método Mãe Canguru
Uma grande quantidade de pesquisa adicional na importância
do contato físico para pais e bebês provêm
do uso do Método Mãe Canguru para bebês
prematuros. O Método Mãe Canguru (MMC) foi
inicialmente desenvolvido em maternidades da Guatemala onde
a falta de incubadoras fez com que pusessem os bebês
dentro das roupas das mães para mantê-los aquecidos.
Desde então, o MMC tem demonstrado beneficiar muito
recém-nascidos permitindo que eles regulem melhor
seu ritmo cardíaco e sua respiração,
melhorem o sono, cresçam mais depressa e com menos
choro e recebam alta antes dos prematuros que não
usaram o MMC (Sears, 1995b).
O Método Mãe Canguru também demonstrou
beneficiar o vínculo mãe-filho (Tessier et
al., 1998). Num estudo de 488 bebês prematuros nascidos
em Bogotá, Colômbia encontrou-se que além
dos benefícios fisiológicos do MMC, as mães
que cuidaram de seus bebês desta maneira desmonstraram
um vínculo afetivo mais forte e alteração
na sua percepção do filho, houve também
um efeito de resiliência, que fez com que a mãe
que praticava o MMC se sentisse mais competente para cuidar
de seu bebê mesmo quando alterações
de saúde requeriam uma internação hospitalar
mais longa. Estudos também analisaram o uso do MMC
em bebês a termo e determinaram que o MMC é
benéfico em promover temperaturas corporais e níveis
de glucose saudáveis assim como reduzir o tempo de
choro em bebês nascidos a termo. (Cash & O'Quinn,
1996). Estudos de casos do uso de MMC com gêmeos prematuros
e seus pais adolescentes (Dombrowski et al., 2000) e com
bebês nascidos a termo e mães com dificuldades
de amamentação (Meyer & Anderson, 1999)
também demonstraram benefícios tanto emocionais
quanto físicos para as díades envolvidas.
Evidência Antropológica
De acordo com estudo de Lozoff e Brittenham (1979) sobre
a forma de cuidar dos bebês nas sociedades de caçadores-coletores
e outras sociedades não industriais, o padrão
do comportamento humano em relação aos bebês
têm sido sempre de carregá-los ao colo. Os
pesquisadores encontraram que bebês que ainda não
engatinhavam eram carregados mais de 50% do tempo nas sociedades
estudadas de caçadores-coletores. Essas mães
também carregam seus filhos durante toda a primeira
infância. Entre os !Kung do Deserto de Kalahari, isso
permite uma amamentação quase contínua,
enquanto que em outras sociedades de caçadores-coletores,
a amamentação acontece em regime de livre-demanda.
Estas crianças são atendidas quase imediatamente
quando choram e frequentemente com muita afeição.
Ao contrário da crença ocidental que crianças
cuidadas desta maneira são exageradamente dependentes,
estes bebês desenvolveram cedo independência
da mãe, voluntariamente passando mais da metade do
dia com seu pai ou outras crianças, entre 2 e 4 anos
de idade. Na maioria das sociedades não-industriais
estudadas os bebês não eram tão carregados
quanto nas sociedades de caçadores-coletores, mas
a mãe ainda é a principal figura, ela dorme
na mesma cama ou quarto que a criança e a criança
é amamentada por mais de 24 meses. Os pesquisadores
observaram que nestas condições o choro das
crianças era atendido rapidamente e com uma resposta
apropriada e carinhosa. Os autores notam que a situação
dos bebês nos Estados Unidos é drasticamente
diferente desses padrões com crianças passando
somente 25% de um período de 24 horas em contato
com sua mãe devido à proliferação
do uso de bebês-conforto, cadeirões de comer,
balanços e cercadinhos, além do conselho dos
pediatras de serem usadas áreas de dormir separadas
para o bebê, resultando na estatística lamentável
de mais de 43% dos episódios de choro dos bebês
americanos são ignorados (Blackwell, 2000; Lozoff
& Brittenham, 1979).
Uma comparação fisiológica da composição
do leite materno leva a crer que os humanos foram feitos
para carregarem seus bebês (Lozoff & Brittenham,
1979; McKenna et al., 1993). O leite materno em mamíferos
que escondem ou deixam seus filhotes em ninhos e outros
locais seguros entre as mamadas possui altos teores de proteína
e gordura. O leite dos mamíferos que carregam seus
filhotes ou daqueles onde a cria permanece ou hiberna com
a mãe, possui teores de proteína e gordura
mais baixos. O leite materno humano tem baixos teores de
proteína e gordura identificando um ritmo de mamadas
muito frequentes e abundante contato físico com a
mãe como um padrão ótimo de cuidados
maternos para humanos. Quer você acredite que os humanos
evoluíram ou fomos criados por Deus, fica evidente
até no leite materno que as mães foram feitas
para carregarem seus bebês com elas.
© 2001 Tami E. Breazeale
Tami E. Breazeale, M Ed. foi professora de adolescentes
com distúrbios emocionais e de comportamento em escolas
privadas e públicas durante cinco anos antes de virar
mãe. Sua tese completa de mestrado em educação
está disponível no endereço: http://www.visi.com/~jlb/thesis.html,
e apresenta uma revisão da literatura existente sobre
distúrbios de apego, teoria do apego e a importância
de promover comportamentos orientados para a maternidade
com apego para combater o desenvolvimento de distúrbios
na próxima geração. Tami atualmente
mora em Minnesota, EUA, com seu marido e três filhos
pequenos.